Iêda Marques

Luz grafias

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  • Pelas rotas da luz interior

      Por: Tiago Moreira

               A arte fotográfica de Iêda Marques é um trabalho em movimento, pelos caminhos do mundo e da Bahia, pela busca da luz interior, da valorização, da ligação entre cultura e educação na luta pelo meio ambiente. Por esses caminhos, o olhar lírico e crítico se admiram e se espanta com as coisas que retrata, sempre de forma intensa. E nas andanças se depara com as rotas do passado: as dos pré-históricos, dos tropeiros, do engenheiro Teodoro Sampaio pelo curso do rio São Francisco e pela região da Chapada Diamantina; a rota percorrida pela Coluna Prestes no território baiano. Tempos históricos distintos, com realidades geográficas diferenciadas, e um olhar atual sobre as marcas deixadas na paisagem do sertão, no modo de vida de seus personagens, pelo interior. Cada uma destas rotas fez e faz parte da história de cada região, deixou marcas culturais e reflexos ambientais em suas paisagens.

               Da relação dialética entre estas histórias, e suas diferentes forças motivadoras, surge a percepção de que tudo se comunica, entre diferentes dimensões (cultural, ambiental, política e econômica), pelo diálogo entre os vários tempos e espaços. E ao mesmo momento, surge também a percepção de que muitas dessas marcas históricas, da permanência de muitas culturas sertanejas têm sido atropeladas pelo ritmo acelerado do motor do desenvolvimento globalizante. E em resistência a este pensamento, Iêda busca dar luz e voz à identidade sertaneja, através da sua fotografia, do seu olhar de sujeito daquilo que retrata, de alguém que vive a vida com arte, que usa a arte para mudar sua própria vida e a do próximo, para fazer o seu ambiente sustentável. Este é um trabalho que liga o conhecimento científico ao conhecimento tradicional, oras de maneira consciente e intencional, oras de forma instintiva, buscando quebrar barreiras de classe, aproximar as pessoas, e, sobretudo estimular o olhar artístico de cada um.

               O mestre Paulo Freire dizia que o trabalho do professor - pesquisador deve ser pautado pela ética, mas também, na mesma importância, pela estética. E é com ética e estética que Iêda busca revisitar a antiga rota do seu saudoso pai, meu avô Francisco Deoclides de Almeida, o Chico Moreno. Nesta trilha de leste a oeste da Bahia, saía-se das planícies e tabuleiros litorâneos do Recôncavo, seguindo em aclive até alcançar as terras altas da Chapada Diamantina, para depois prosseguir em declive até chegar à grande Depressão Sanfranciscana. Na última etapa da viagem, novamente em aclive, alçava-se o Planalto Central Brasileiro, no seu trecho entre a Bahia e o Goiás, atual Tocantins.

               Este grande roteiro de comércio itinerante que era empreendido pelos tropeiros, percorria diferentes grandes regiões do estado, com contextos ambientais distintos e realidades socioeconômicas, culturais e políticas diversas. Este trajeto cruzava por locais vários e em cada um destes lugares ouviam-se as histórias dos viajantes, as memórias dos tempos idos, a cultura de cada região. E eis que este viajante ia formando sua personalidade e sua bagagem cultural, na forja da mistura de cheiros, sabores, sons, imagens, paisagens e sensações. Esse trabalho busca as marcas do passado, das permanências e das mudanças ocorridas no interior em quase um século, num esforço que procura conhecer essas marcas para entender o presente e pensar o futuro. Um futuro que garanta uma vida sustentável para as próximas gerações, uma cultura múltipla e democrática e um mundo menos capital e mais interior.