Iêda Marques

Luz grafias

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  • O despertar do olhar orgânico

      Por: Iêda Marques

              Pai foi um negociante, tropeiro, boiadeiro, caminhoneiro, lavrador, artesão, amante da música e que viveu em eterno movimento, andou da Chapada para o Recôncavo, do Oeste Baiano e Médio São Francisco até as serras do Espigão Mestre na divisa da Bahia com os estados de Goiás e Tocantins. Mãe lavradora, costureira e artesã, hoje uma aposentada rural. Somos todos profundamente ligados à cultura do semiárido, região de origem de todo a família, na Chapada Diamantina, Bahia. No final da década de sessenta, após falecimento dele, a família de força matriarcal se muda para a grande cidade, São Paulo, onde se pretendia estudos e trabalho.

              Dos seis filhos fui a única a entrar numa Universidade, a de São Paulo, cursar pedagogia com o intuito de retornar para o sertão e trabalhar com educação. O meu sonho era mexer com a mentalidade e o comportamento do ser humano, em relação à natureza e a sua própria cultura. Meados da década de setenta, não suportando mais a vida na metrópole, a família retorna para a Bahia; Chapada, Oeste e Salvador, assim ela foi distribuída. Na capital não consegui terminar a faculdade, fiz um curso de fotografia no SENAC, na famosa Baixa dos Sapateiros. De forma autodidata passei a desenvolver um trabalho autônomo e independente com comunidades do interior, principalmente as rurais, utilizando a fotografia, como uma criativa ferramenta. Na busca de valorizar, registrar, revelar, estimular e intercambiar a riqueza cultural, artística, ambiental e espiritual do sertanejo, o trabalho vem sendo realizado principalmente na Chapada Diamantina e Oeste Baiano, a caatinga e o cerrado, biomas essencialmente brasileiros.

              A fotografia passa a fazer parte ininterrupta da minha vida num trabalho cotidiano ligado à identidade cultural sertaneja, tão rica quanto vulnerável. Ter clara a influência dos retratistas pintores e dos mascates. O trabalho retorna às comunidades através de projeções de slides, exposição de fotos e monóculos, encontros culturais e ambientais, a fim de reforçar a auto-estima, influenciar a população e as novas gerações à reflexão, preservação e dinamização da cultura e do meio ambiente. Criar imagens possíveis de provocar a luz interior de cada um, levando ao autoconhecimento individual e coletivo, essa é a minha proposta de vida. Uma escolha difícil que acredito fazer parte da minha sina, ser paciente, fiel aos nossos conhecimentos que estão desaparecendo. Buscar um mundo com mais beleza e decência, vencer pela devoção e pelo amor.

              O trabalho será um recorte na rota leste / oeste, que corta horizontalmente o estado da Bahia, tendo como referência os caminhos feitos por Chico Moreno, pai, nas décadas de quarenta, cinqüenta e sessenta. Essa rota cruza com as pinturas rupestres, a estrada real, a passagem do engenheiro Teodoro Sampaio na primeira Comissão Hidráulica do país no século XIX e a Coluna Prestes no século XX. É grande a carência de projetos de valorização e registro das culturas andantes, principalmente em regiões do semi-árido e que sejam produzidos por profissionais locais. É importante termos a possibilidade de sairmos da posição de objeto e sermos sujeito, mostrar quem somos, afinal, nossa origem está na agricultura familiar, que é responsável por quase oitenta por cento do alimento da cesta básica do brasileiro. Disponibilizar o registro em forma de livro, exposição e vídeo para as escolas, bibliotecas, organizações civis e o mercado de cultura e arte, é de suma importância. Será a construção de uma pequena memória, uma interpretação através do olhar, dos nossos hábitos telúricos e da nossa lúdica fé. O arremate desse trabalho será realizado através de viagens por alguns municípios da rota citada, tendo como extremidades as cidades de Cachoeira no Recôncavo e Natividade no Tocantins. Ele já vem sendo feito e mostrado nos povoados, nas cidades, em outros estados e países, buscando gerar uma discussão sobre a preservação dos patrimônios cultural e natural.

              Foi lendo o dicionário, fonte de conhecimento diário, que fui descobrindo o significado das palavras e foi através da fotografia que descobri o trabalho silencioso da imagem. Antropagogia s.f. pedagogia social, tendente a alargar a ação educativa para fora da escola e da família. Isso define um pouco o que eu faço.